PROSA

À ESPERA
(André L. Soares)
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Fim da tarde. O tempo parece mais preguiçoso que de costume. Através do vidro sinto a cidade, sem prestar atenção a detalhes. Impedido estou de perceber as minúcias da beleza à minha frente, pois, se os olhos aqui se encontram, o pensamento há muito bateu em retirada, vagueando longe, atrás do que me falta. De repente, um ranger de ferros de portão; um farfalhar manso junto às árvores; um leve ruído de chave fina que invade e gira a fechadura. Com a porta que se abre o vento traz primeiro, a energia positiva que me anima; depois, o perfume sinônimo de minha ‘anti-solidão’. Ouço o som de pés delicados, quase a flutuarem sobre o tapete da sala. Em mim é festa, como se a Felicidade bailasse ao som da música perfeita. Viro-me em tempo de perceber teu sorriso irradiar o quarto, antes mesmo que tua silhueta se complete sob o umbral. Pronto. Por tua chegada, e após o beijo que trocamos, identifico agora todos os tons, antes inatingíveis, da paisagem que se faz pintura na moldura da janela.
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